terça-feira, 20 de julho de 2010

A metamorfose - Franz Kafka




“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Assim começa A metamorfose, de Franz Kafka, obra escrita em 1912, na qual um narrador neutro (“cara de pau”, segundo o tradutor Modesto Carone) conta a história de um homem que se transformou num inseto e a reação de sua família, que até então era sustentada por ele. A frieza do narrador, que não se espanta, não explica e sequer divaga sobre o absurdo da situação é assombrosa.

Como é possível narrar a transformação de um homem em um inseto sem se surpreender com o fato, sem ao menos tentar descobrir por que Gregor acordou daquele jeito?

Essa postura narrativa, contudo, é uma das principais características da obra, na medida em que afasta a atenção da metamorfose – que é colocada como um fato ordinário – e se atém às conseqüências da transformação. Até o protagonista, que simplesmente acorda inseto, não se espanta com a sua mutação; pelo contrário, sua preocupação é como irá se levantar para ir ao trabalho.

Em nossa conversa sobre a obra, falamos sobre essa indiferença do narrador, que chegou a causar frustração a uma das leitoras. No entanto, é justamente nessa impassibilidade que reside a liberdade interpretativa de A metamorfose.

Como lemos em O retrato de Dorian Gray, “definir é limitar”; não é preciso muito esforço para perceber que o nosso debate não teria sido tão rico se Kafka houvesse elucidado os motivos da transformação. Por não haver uma definição imposta a priori pelo escritor, nós, leitores, temos liberdade para divagar sobre o porquê da transformação de Gregor.

Surgiram, portanto, e
m nosso debate, três interpretações, todas muito interessantes a meu ver: a metamorfose seria uma doença? Seria uma manifestação do subconsciente da personagem para se livrar do trabalho? Ou haveria uma inversão na narrativa: Gregor adoece e por isso passa a se ver como um inseto, um parasita?

Em nossa reunião, discutimos ainda a reação da família (exploração, repugnância, ingratidão, dificuldade de comunicação, vínculo puramente econômico, dependência etc.) e a reificação do ser humano - que somente seria considerado importante se capaz de produzir (relação de trabalho) -, ligando essas questões a nossas relações interpessoais. Além disso, falamos um pouco sobre a conturbada relação de Kafka com seu pai, que, segundo alguns críticos, influenciou toda a sua obra.

Não há conclusão, mas apenas indagações: será que tratamos certas pessoas como insetos? Já nos sentimos como insetos em alguma situação? Até que ponto somos fungíveis ou descartáveis?

Por fim, nada melhor que citar a opinião do próprio autor sobre literatura:

Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?

Talvez a metamorfose mais relevante seja a dos leitores...

Nota: 8,75.

Uma ideia para uma versão pós-moderna de A metamorfose:
ecosprosaicos.blogspot.com/search/label/Kafka

9 comentários:

hgbarros disse...

Bernardo, excelente post!

Para mim foi um desafio muito grande ler a Metamorfose, de Kafka, pois sou um entomofóbico em altíssimo grau. Portanto, só consegui ler 70% do livro, o que para mim foi uma grande vitória! :)

Entretanto, gostei muito do que li e das diversas reflexões que o livro nos proporciona (e que são muitas!). Acredito que você as tenha resumido muito bem.

Estou muito ansioso para adentrarmos no terreno obscuro e insólito do próximo livro, cujo gênero será TERROR! Hehehehe.... Muá há há háaa! :P

Se bem que a Metamorfose, de Kafka, já teve um quê de terror para mim...

Abraços, Hugo

Érika Martins disse...

Post suscinto e preciso. Assim como Kafka. O livro foi interessante nos aspectos literário, fiosófico, moral, social e zoológico. Afinal o exoesqueleto descrito pertence a uma barata ou besouro?

Mariana disse...

Um dia vou sentar com mais paciência e ler de novo esse livro.
Não gostei (a princípio). Como disse, tudo que consegui entender do livro foi: Gregor vira um inseto, definha e morre.

A nossa discussão me fez pensar em pegar ele de novo pra ler um dia. Quem sabe?

Rebeca disse...

Apesar de não ter dado nota 10 ao livro, considerei uma ótima escolha, por ter nos proporcionado tantas interpretações e discussões. Só não barrou "O admirável mundo novo" nesse aspecto.

Bruno Holmes Chads disse...

Não é de se estranhar a indiferença do narrador para o fato de Gregor se transformar num inseto se pensarmos que a sua transformação é a analogia da atitude de se tornar algo outro em relação a que as pessoas (família, patrão) não reconhecem mais como um semelhante. Transformar-se no que ele se transforma é deixar de ser reconhecido, é passar a ser visto como diferente, pertencente a outra espécie. E ir na direção contrária a uma tal transformação é o que se faz todos os dias, a lua diária pela aceitação, construção do corpo, do rosto, adequação do modo de falar e de pensar pautada pelo distanciamento do que supomos ser estranho por parte do outro. O ponto de vista do narrador é justamente o de quem esse exercício de liberdade (o de abrir mão do reconhecimento) é algo absolutamente corriqueiro. O que é curioso é a atitude de quem está à sua volta, atitude de desdém e de nojo, pois se percebe neles o esforço típico dos que só se relacionam com o que é apaziguado pelo reconhecimento, com aquilo que é idêntico, comum, domesticado. Transformar-se num inseto equivale a deixar de sorrir para a foto, deixar de ser aquilo que se imagina ser, abandonar a imagem. O narrador pensa, como Gregor, diferentemente dos outros da casa, que são autômatos, presos à idéia de aceitação, medíocres e ocos. Foram eles que mataram Gregor, pois este se tornara livre demais.

Abraço a todos!!!

♥(¸.•`´(¸.•`´Nossa Casa, Nosso Sonho...``•.¸)``•.¸)♥ disse...

Amei esse blog, já estou seguindo...amo lê, amo literatura, é muito bom viajar no imaginário, parabéns!

Bernardo Parreiras disse...

Seja bem-vinda! Já leu cem anos de solidão? É o próximo livro...

GRAÇA disse...

Li no blog da Mah que tem gatos e vim conhecer-te mas agora ainda estou mais admirada quando vi que falavas de Eça de Queiroz!!
Eu sou Portuguesa e tenho uma gata que tem um blog com muitos amiguinhos,eras capas de gostares de conhecer o blog dela como eu gostei de conhecer o teu
Beijinhos e um bom ano 2012
Turrinhas da Kika

O Cercadinho disse...

Interessantes teus posts, escrevo para divulgar o : www.o-cercadinho.blogspot.com Caso queira acompanhar e dar umas risadas,
será um prazer ter nos visitando lá. O que é o Cercadinho? Segue apresentação para te situares. Em cada relacionamento afetivo, os envolvidos ficam restritos a um espaço, O Cercadinho, onde acontecem as interações. Em algumas fases, está cheio de "queridas", mas em outros, quase vazio. O Cercadinho é o resultado das conquistas amorosas, onde cada um preenche à sua maneira e gosto. Pode ter o critério de cotas e uma de cada: loira, morena, mulata, ruiva e/ou japa. Com faixas etárias e tipos variados. Até monogâmico com apenas uma mulher selecionada. Somos dois homens escrevendo relatos e histórias, sem pretensão literária sobre O Cercadinho. Seco, objetivo e um pouco bagual com sentimentos, assim é Iberê. Apaixonante, cafajeste e trash total, esse o Marcão. Entre no nosso Cercadinho e boa leitura.
Iberê

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