terça-feira, 20 de julho de 2010

A metamorfose - Franz Kafka




“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Assim começa A metamorfose, de Franz Kafka, obra escrita em 1912, na qual um narrador neutro (“cara de pau”, segundo o tradutor Modesto Carone) conta a história de um homem que se transformou num inseto e a reação de sua família, que até então era sustentada por ele. A frieza do narrador, que não se espanta, não explica e sequer divaga sobre o absurdo da situação é assombrosa.

Como é possível narrar a transformação de um homem em um inseto sem se surpreender com o fato, sem ao menos tentar descobrir por que Gregor acordou daquele jeito?

Essa postura narrativa, contudo, é uma das principais características da obra, na medida em que afasta a atenção da metamorfose – que é colocada como um fato ordinário – e se atém às conseqüências da transformação. Até o protagonista, que simplesmente acorda inseto, não se espanta com a sua mutação; pelo contrário, sua preocupação é como irá se levantar para ir ao trabalho.

Em nossa conversa sobre a obra, falamos sobre essa indiferença do narrador, que chegou a causar frustração a uma das leitoras. No entanto, é justamente nessa impassibilidade que reside a liberdade interpretativa de A metamorfose.

Como lemos em O retrato de Dorian Gray, “definir é limitar”; não é preciso muito esforço para perceber que o nosso debate não teria sido tão rico se Kafka houvesse elucidado os motivos da transformação. Por não haver uma definição imposta a priori pelo escritor, nós, leitores, temos liberdade para divagar sobre o porquê da transformação de Gregor.

Surgiram, portanto, e
m nosso debate, três interpretações, todas muito interessantes a meu ver: a metamorfose seria uma doença? Seria uma manifestação do subconsciente da personagem para se livrar do trabalho? Ou haveria uma inversão na narrativa: Gregor adoece e por isso passa a se ver como um inseto, um parasita?

Em nossa reunião, discutimos ainda a reação da família (exploração, repugnância, ingratidão, dificuldade de comunicação, vínculo puramente econômico, dependência etc.) e a reificação do ser humano - que somente seria considerado importante se capaz de produzir (relação de trabalho) -, ligando essas questões a nossas relações interpessoais. Além disso, falamos um pouco sobre a conturbada relação de Kafka com seu pai, que, segundo alguns críticos, influenciou toda a sua obra.

Não há conclusão, mas apenas indagações: será que tratamos certas pessoas como insetos? Já nos sentimos como insetos em alguma situação? Até que ponto somos fungíveis ou descartáveis?

Por fim, nada melhor que citar a opinião do próprio autor sobre literatura:

Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?

Talvez a metamorfose mais relevante seja a dos leitores...

Nota: 8,75.

Uma ideia para uma versão pós-moderna de A metamorfose:
ecosprosaicos.blogspot.com/search/label/Kafka

domingo, 27 de junho de 2010

O Primo Basílio - Eça de Queiroz

Minha primeira idéia para a escolha do livro foi prestigiar um autor nacional e aproveitar a ocasião para tornar conhecido entre nós, algum não muito popular. Pensei na Ligia Fagundes Telles. Para minha enorme decepção, achei a maneira dela redigir muito chara e cansativa e mudei de idéia nas primeiras folhas do livro que tinha escolhido. Como minha segunda opção, tinha reservado o Eça de Queiroz, que acabei por colocar em pauta. A pedido de Rebeca, escolhi o "O Primo Basílio". Qualquer um dos dele seria válido. Gosto da maneira como ele conta as histórias, desmascarando a sociedade portuguesa da época, segunda metade do século XIX. O único senão que eu levanto é ter que ler o português arcaico, com sua forma indireta de falar, bem estranha à nossa. Mas tudo é cultura!

Esta história, apesar de ter quem achasse pobre de originalidade (nada de mais), deve ser avaliada no contexto da época, cheia de rigores, aparências e regras morais, principalmente aplicadas sobre as mulheres. Observamos que distinção marcante entre a tolerância com o comportamento do homem e o rigor sobre as mulheres. Neste livro o autor revela o resultado desta fórmula "rigor versus tolerância", tanto com a conclusão da história como com as atitudes hipócritas de alguns personagens.
A história trata de casal jovem de classe média abastada, Jorge e Luísa, sem filhos, que se casou mais por ser conveniente para os dois do que propriamente por amor. Moram na casa de herança de Jorge com duas empregadas e um círculo pequeno de amigos fiéis, frequentadores da casa. Tinham por hábito reunirem-se todos os fins de semana para um "sarau" em casa de Jorge. Cabia à esposa a direção dos serviços domésticos, organizar as pequenas reuniões e tocar piano. Jorge é obrigado a se ausentar por um longo período a trabalho e não cogita de levar Luísa, deixando-a sozinha por um prazo que sugere meses, tantos são os acontecimentos durante sua ausência. Ela, passado um tempo, queixa-se de abandono e solidão aos amigos íntimos do casal, sente-se aborrecida, nada para fazer, sem companhia para sair, sua amiga pessoal mais próxima é rejeitada pelo marido sob alegação de não ser boa companhia para ela pois é uma mulher mais independente, mesmo casada. O autor neste ponto, mostra a diferença de postura entre o sexos, pois conta que Sebastião, amigo bem próximo de Jorge, recebe deste uma carta onde conta suas aventuras com uma mulher que conheceu. Neste meio tempo, chega de visita em sua casa, o primo de Luísa, Basílio, com quem ela já tinha namorado antes de se comprometer. Este primo esteve fora de Portugal por anos e retornando resolve fazer-lhe uma visita. As visitas se sucedem até ser tornarem diárias, acarretando comentários maldosos da vizinhança e gerando em Luísa um grande encantamento, até porque deixa seus dias monótonos com gosto de aventura. Este primo revela-se um verdadeiro Dom Juan sem escrúpulos, interessado apenas em distrair-se com ela, aproveitar tudo o for possível, virar as costas e ir embora sem remorsos, o que de fato, faz. Luísa, ingênua e carente, depois de uma certa hesitação, deixa-se cair em tentação e envolve-se, cheia de sonhos românticos, relutando em perceber a realidade até mesmo quando esta se faz gritante aos seus olhos. O desenrolar deste romance é acompanhado de perto pela Juliana, doméstica mal amada, maliciosa e invejosa que Jorge herdou junto com a casa, e com a qual a própria Luísa não se dá bem. Constatando o fato e conseguindo provas contra a patroa, passa a chantageá-la pedindo uma vultosa soma em dinheiro a qual Luísa não tem como conseguir sem recorrer ao marido. Apela para o primo, expondo a situação, e este ainda se faz de ofendido, tirando o corpo fora. Tomando-se de brios, Luísa volta atrás e decide resolver o assunto por conta própria, coisa que não consegue. Por diversas vezes pensa em socorrer-se de Sebastião, amigo fiel do casal, mas por vergonha sempre adia a decisão. Neste estado de coisas chega Jorge de volta à casa, o que deixa Luísa apavorada, pensando que sua traição pode ser revelada a qualquer momento. O resultado é que se vê nas mãos da Juliana que passa a exigir regalias dentro de casa, menos serviço, confortos e abusos, de tal modo que o próprio Jorge chega a estranhar e reclamar com a mulher, quando a vê fazendo o serviço de casa no lugar da empregada e ainda a defendê-la. A situação fica insustentável quando o Jorge resolve mandá-la embora. Sendo pressionada pelos dois lados, Luísa afinal, recorre ao Sebastião que, condoído com o sofrimento da amiga, traça um plano para tirar as provas do adultério das mãos da Juliana e pô-la para correr dali. O plano sai melhor do que a encomenda pois que, Juliana ao ver-se descoberta, passa mal e morre. Luísa, esgotada, apesar de saber do desfecho que lhe beneficia, cai doente. Jorge, desconhecendo todo o drama, aflige-se com a doença da mulher, dando-lhe toda a assistência e cuidados. Durante este período, Luísa já melhorando e quando a tempestade parece ter acabado, chega uma carta do Basílio para a prima, que vai parar nas mãos de Jorge, uma vez que esta mais em casa para prestar cuidados à esposa. Não resistindo ao ver o remetente, le a carta e fica chocado pois, pelo texto, fica claro que houve uma grande intimidade entre os dois. Respeitando a saúde ainda frágil de Luísa, retem consigo a carta, mas morto de ciúmes, passa a remoer o que fazer agora. Recuperada, retomando sua vida normal, Luísa acaba por saber da carta indiretamente e, imaginando que Jorge já sabia de sua traição, tomada de culpa, medo e vergonha, adoece novamente, agora gravemente, deixando a todos aflitos, inclusive seu marido, que deixa de ter a oportunidade de confrontá-la. Luísa não resiste ao peso da culpa e morre para desespero de Jorge e de Sebastião que a adora em silêncio.
História de desencontros, aparências, silêncios, traições, contradições, descasos, egoísmos, hipocrisia e maledicências, deslealdades. Tudo isto presentes na sociedade de fins do século XIX, supostamente católica, rigorosa com a moral e os bons costumes, honrada, correta e autêntica, que gera personagens camuflados, falsos, desleais e interesseiros, que ridicularizam e desprezam aqueles que tem coragem ou ingenuidade de serem verdadeiros. Temos a Dona Felicidade que não tem constrangimento de se queixar de seus gases até para o homem que lhe interessa, bem como a Leopoldina que, vivendo um casamento de conveniência, esta sempre envolvida em romances com rapazes mais novos, sem fazer disto muito segredo. Aqueles que não são tão autênticos, nem por isto deixam de ter seus casos secretos: O Conselheiro Acácio, personagem sério, mais velho, respeitado por todos, pronto para opinar sobre as atitudes alheias, mantém um caso com a sua empregada de cama e mesa. Lembramos que este personagem deu origem ao termo acaciano: sujeito ridículo, sentencioso, enfatuado. O próprio Basílio que já nas primeiras linhas do romance se percebe ser um canalha, mantém-se fiel a si:todos os seus atos estão de acordo com o sujeito sem escrúpulos e imoral que é.
Os personagens que mais cativaram por motivos diferentes, é claro, foram a Juliana, o Sebastião e a própria Luísa. Observamos que tal história só teve o destaque que guarda até hoje por ter sido escrita na época e no país que foi, com a riqueza de detalhes em torno das situações amorosas críticas, certamente causando forte reação no público. Alguns ficaram revoltados com a atitude submissa da protagonista que, simplesmente deixa-se morrer tomando a si toda a responsabilidade pelo ocorrido, sem considerar a displicência do marido que a deixou sozinha e praticamente reclusa durante meses. Alvo fácil para qualquer pretexto que trouxesse alguma novidade aos seus dias. Tirando a redação arcaica e os termos não mais usados, o romance é interessante e forneceu bastante material para discussão quanto a situação social da mulher. Recebeu duas notas dez e três notas nove, o que resulta em um 9,5.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Retrato de Dorian Gray


Escrita no final do século XIX por Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray” retrata as preocupações estéticas da época. Considerada uma das mais intrigantes obras do autor irlandês, a história escandalizou as pessoas de seu tempo, sendo lançada primeiro como um ensaio em uma revista e depois divulgado em 1891 na sua versão completa como conhecemos hoje.

A história se passa em Londres, onde Dorian Gray conhece Lorde Henry através de seu amigo e artista Basil Hallward, quando este o convida o aristocrata para que conhecesse a pintura que estava fazendo do jovem Dorian. Lorde Henry, personagem hedonista e eloquente, encanta Dorian de tal forma que este o deixa levar pelos seus discursos, tornando-se um admirador do lorde.

Induzido pelas palavras de seu novo amigo, Dorian se vê consternado ao perceber que a sua magnífica beleza e juventude para sempre estariam gravadas no quadro, enquanto ele próprio ficaria velho e feio. Dessa forma desejou: “Se eu pudesse ser para sempre moço, se o quadro envelhecesse. (…) Sim, não há nada no mundo que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma.”
Seu desejo se tornou realidade e todas as suas preocupações, anseios, pecados e defeitos passaram a ser espelhados no retrato. Dorian só percebe as novas propriedades da pintura quando a mulher por quem estava apaixonado, a atriz Sybil Vane se mata após ser dispensada pelo jovem. O retrato antes com o rosto exatamente como foi pintado, agora exibia uma expressão maliciosa.

Dorian Gray manteve o retrato escondido em um quarto na sua casa por dezoito anos, enquanto cultivava o vício pelo ópio, se envolvia com prostitutas e estudava perfumes, pedras e religiões sem que ninguém ao seu redor desvendasse o mistério daquele homem que nunca havia deixado de ser jovem e belo.

Tudo muda de figura quanto Basil Hallward, seu velho amigo com quem não falava há muito tempo o procura na noite antes de se mudar para Paris, querendo ver a sua obra-prima por uma última vez. Após deixa-lo ver o retrato, Dorian Gray assassina o artista e chantageia Alan Campbell, seu conhecido, para se livrar do corpo.

Ao perceber a crueldade de seu ato e a vida que tinha levado até então, tomado por um ato de desespero, Dorian então esfaqueia o retrato, na tentativa de destruí-lo, e acaba destruindo a si próprio. O retrato volta a exibir a imagem de Dorian Gray como jovem e ingênuo e seu corpo sem vida adquire os traços maléficos e danificados, reflexos de seus próprios pecados.

Em nossa discussão, achamos que a vaidade e a ganância que envolvia Dorian Gray, principalmente por influência do Lorde Henry retrata a própria visão do autor Oscar Wilde sobre a realidade de sua época e forma como ele próprio era visto pela sociedade.
Essa obra impressinou por ser homoerótica e muitas partes do livro foram usadas contra o próprio Oscar Wilde, que era homosexual e foi preso por isso. Hoje, “O Retrato de Dorian Gray” é considerado um clássico da literatura inglesa e já rendeu um filme, filmado em 1945.

A nossa nota para o livro foi, em média, 9,3, já que algumas partes foram consideradas muito descritivas e cansativas para leitura. Tirando isso, a história é interessante e nos faz refletir sobre os nossas vaidades e defeitos e a maneira como devemos aprender a lidar com eles.

Quem quiser se envolver nos discursos inteligentes e maliciosos de um personagem como Lorde Henry, entender como funciona a mente de um artista platonicamente apaixonado pela figura de sua inspiração ou observar o comportamento de um jovem tomado pelas influências ao seu redor, “O Retrato de Dorian Gray” é o livro certo para se ler.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dona Flor e seus dois maridos - Jorge Amado







O livro escolhido da vez foi o Dona Flor e seus dois maridos, do escritor baiano Jorge Amado, membro da Academia Brasileira de letras. Os motivos que me levaram a escolher tal livro foi, primeiramente, a intenção de escolher um autor brasileiro por meio do qual pudéssemos nos familiarizar um pouco mais com nossa literatura nacional, e, em segundo lugar, o fato de que já tinha lido outro livro do autor (Capitães de areia) e tinha gostado muito.




Dona Flor e seus dois maridos é um relato extenso, detalhado e bem humorado da vida de Dona Flor, uma professora de culinária baiana que, após ficar viúva de seu primeiro marido, Vadinho, se casa com Teodoro e com ele vive uma rotina calma e feliz até que o espírito do falecido reaparece.




É interessante notar que as características que determinam os dois maridos de Dona Flor são totalmente discrepantes. Vadinho, o funcionário fantasma da prefeitura, era boêmio, brincalhão, infiel, carinhoso, vagabundo, viciado em jogo e, ainda assim, fazia de Dona Flor uma mulher apaixonada. Já Teodoro, o farmacêutico, era sério, trabalhador, fiel, gentil e responsável, o típico marido ideal que, ainda assim, deixava Dona Flor com aquela sensação de que algo estava faltando. Na verdade, Dona Flor não fora plenamente feliz e nenhum de seus casamentos: ora lhe faltava um homem que lhe fornecesse alguma segurança perante a sociedade, ora lhe faltava um que a satisfizesse sexualmente. Tal equilíbrio só foi alcançado quando Dona Flor e seus dois maridos passaram a coexistir de uma maneira fantástica, irreal, com o aparecimento do espírito de Vadinho. Irônico ou não, somente de uma forma totalmente impossível a felicidade plena foi atingida.




Fora o enredo inesperado do livro, não podemos deixar de notar algumas características que fizeram desse livro um clássico da literatura nacional. Além de ser extremamente detalhista na caracterização das personagens, permitida pelas digressões constantes em que o autor nos fornece breves narrações sobre situações passadas, o tom bem-humorado da narrativa, bem como a forma coloquial com que o autor apresenta os fatos fazem com que imaginemos perfeitamente as cenas, como se fizéssemos parte da história. Talvez sejam essas características que tenham feito das obras de Jorge Amado uma matéria-prima rica para as telenovelas.




Outra característica interessante do livro é a presença de personagens da vida real, tal como o cantor Dorival Caymmi, além da mensão a lugares que realmente fazem parte da história baiana, como a escola de culinária Sabor e Arte, de propriedade de dona Flor na ficção. Todas essas alusões servem para nos deixar com aquela dúvida: será que as personagens realmente existiram? Estava o autor contanto histórias verídicas? Tais perguntas perdem a importância perto do fato de que a ficção é sempre inspirada, direta ou indiretamente, pela vida real. Quantas Florípedes, Waldomiros e Teodoros já não conhecemos ou ouvimos falar?




A média da nota que o grupo deu para o livro foi 9,00. O único fator negativo apontado foi o excesso de detalhamento em algumas situações narradas, as quais, por diversas vezes, não desempenharam um papel relevante para o desenvolvimento do enredo.


Cartaz do filme lançado em 1976, a maior bilheteria de filme nacional. Recebeu também a indicação ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Casa dos Espíritos - Isabel Allende


Quando criamos o nosso clube de leitura resolvemos iniciar com clássicos. Começamos com alguns de ficção científica, que a princípio foram uma novidade para mim, em particular, mas de grande valor para ampliar os meus horizontes literários.

Porém, resolvi introduzir um outro gênero e quebrar um pouco a fase futurista. Desta vez escolhi um clássico da literatura latino americana.

Um livro muito famoso que foi traduzido para as telas de cinema: A casa dos Espíritos. O título a primeira vista pode conduzir à falsa ideia de tratar-se de mais uma obra inspirada na temática exotérica ou espiritualista. Mas o novo gênero trazido ao grupo não foi esse.

A primeira vez que tive contato com este título foi através do filme homônimo ao qual já me referi. Assisti há muito tempo, mas mal me lembrava da história. Lembro que antes de assistir achava que seria um filme de terror. Sei que ao final não tinha mais essa impressão. Mas foi apenas isso que ficou na memória.


O livro aborda a vida de uma família chilena durante algumas gerações, compreendendo um período de aproximadamente 70 anos, culminando no final dos anos 70 do século XX. Os espíritos aos quais o título remete não passam de personagens secundários, quase figurantes literários. O lado espiritual não é o centro da história. A humanidade das personagens é que dá corpo ao romance.

Dentre os personagens principais destaca-se Clara, que tem o dom da clarividência, como sugere o seu nome; Esteban Trueba, um coronelista que é o reflexo do poder na política e da fraqueza no seio familiar; e Alba Trueba, neta do coronel, que coloca em conflito, o avô ao final da vida dele. Muitos outros permeiam a vida da família Trueba, mas são estes que geraram grande parte das discussões entre o grupo.

O grande ponto dos debates foi em torno da revolução militar no Chile. Pôde-se compreender bem a realidade social do período através do livro, já que havia grande envolvimento das personagens com o contexto político.

Porém, apesar da leitura ter sido prazerosa para todos, já que é um daqueles livros que temos dificuldade de largar, pois somos completamente envolvidos com a história, não gerou discussões tão profundas. Creio que isso se deu por se tratar de um livro em que sabemos claramente que está acontecendo, os sentimentos que todos os participantes da história vivenciam, não havendo apenas um único ponto de vista na história. Ao final temos completa noção da história como um todo e não somente a partir de um ângulo, o que sempre gera dúvidas e incertezas. A autora contou a história por completo, tendo sido uma narrativa muito envolvente.

Como avaliação final o livro recebeu 9,5.

A Autora:

Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 80. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973). Escreveu A casa dos espíritos (1982) e ganhou reconhecimento de público e crítica.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley (1932)


Dificulto precisar se por gostar profundamente de ficção científica, ou se por identificar-me inconscientemente com o aspecto metódico, sistêmico e pragmático de um Administrador Fordista - talhado magistralmente por Aldous Huxley – que optei por trazer para o Café com Impressões esta obra-prima. Provavelmente foi pela conjunção destes dois fatores.

Admirável Mundo Novo é um marco literário sem precedentes, cujo mérito já foi exaustivamente abordado e ressaltado em diversos artigos e textos, por pessoas muitíssimas vezes mais qualificadas que nós outros. Nosso objetivo é somente refletir, discutir e ponderar sobre os pontos que mais nos chamaram a atenção, num clima de amizade e com muito bom humor, alto astral e, especialmente, degustando sempre uma ótima comida! Vide ao fato que a expressão mais citada da noite foi “Orgião-Espadão” (risos), ao som de The Corrs, Black Eyed Peas, e isto tudo com um delicioso foundue de carne a nossa frente!

O épico de Aldous Huxley possui muitas dimensões, e alcunhá-lo apenas como um livro de ficção científica é tirar muito do seu brilho, do seu métiro, do seu peso histórico. Ao lê-lo cuidadosamente, perceberemos traços nítidos de um verdadeiro ensaio sociológico/filosófico/religioso, profundo, visionário, e tudo isso em apenas 300 páginas, escritas em 1931... 1931!

Aliás, ter sido escrito em 1931 (e publicado em 1932) foi a primeira coisa que nos deixou totalmente atônitos. É espantoso como Huxley conseguiu elaborar conjecturas acerca do futuro, principalmente no que tange as ciências biológicas, reprodutivas e genéticas, com tanta precisão, critério e fundamento. Isso sem falar em outros temas, como robótica, mecânica, física, química, etc.

Sobre o que é a obra, afinal? Admirável Mundo Novo é um romance ficcional, onde um futuro nada ordinário e artificialmente perfeito aguarda a humanidade. O método de produção Fordista (http://en.wikipedia.org/wiki/Fordism) é aplicado, ipsis litteris, à organização e ao planejamento da sociedade, de maneira que tudo é minuciosamente calculado, objetivando o equilíbrio inabalável do organismo social. Os seres humanos são delineados de acordo com uma definição prévia de castas, a saber: Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons, que desempenham funções específicas e imutáveis dentro da sociedade, sendo os Alfas a casta mais elevada, e os Ípsilons, a mais inferior.

Admirável Mundo Novo nos apresenta a Felicidade não como efeito da Liberdade, mas sim como o efeito da mais perfeita e sinistra limitação inconsciente da Liberdade. Imagine seres humanos sendo, desde o momento de sua concepção (que, aliás, se dá de maneira industrializada, em locais chamados Centros e Incubação e Condicionamento, e não no ventre materno), projetados para exercerem papéis pré-determinados na sociedade.

Se a sociedade necessita de mineradores, que trabalharão nas minas de carvão da Espanha ou da América Central, por exemplo, alguns fetos serão expostos ao frio intenso, para que eles inconscientemente não suportem o frio e busque durante sua vida regiões quentes, abafadas. Injetaremos em seu sangue substâncias que limitarão o seu desenvolvimento intelecto-cogitivo, pois mineradores não precisam ser necessariamente, inteligentes. Aliás, se forem, poderão se transformar em elementos perturbadores da ordem social. Estimularemos apenas o seu desenvolvimento físico, pois mineradores precisam de estamina, força física e resistência, e por aí vai. Bizarro? Nem tanto...

Tudo isto é visto de forma natural e benéfica por todos na sociedade. Os psicológicos Alfas são os responsáveis pela programação da hipnopédia, ou “o aprendizado durante o sono”. Além das alterações genéticas e biológicas, realizadas no estágio embrionário descrito acima, as crianças e jovens também recebem, durante milhares de vezes, todo o treinamento e condicionamento mental que precisam para aceitarem a sua condição, durante o sono. Enquanto dormem, vozes suaves e quase imperceptíveis contendo instruções e ordens são expedidas nos Centros de Condicionamento milhares de vezes durante centenas de semanas. Assim, você fará tudo aquilo que seja fundamental para a estabilidade do organismo social, e fará de maneira inconsciente, e, melhor, fará feliz!

Se por algum motivo, algum membro da sociedade sentir alguma espécie de infelicidade (o que é quase impossível), existe o soma, uma droga alucinógena artificial, que leva o usuário a um estado de alegria e bem-estar, semi-consciente, sem nenhum tipo de efeito colateral. Quer coisa melhor do que isso?

Os mais diversos tipos de entretenimento são elaborados e desenvolvidos constantemente: esportes complicados, músicas e cinemas sintéticos, etc. Isso objetiva manter os indivíduos constantemente ocupados, quando não estão em seu horário de trabalho. Esse método tem como objetivo evitar o pensar, o refletir, o raciocinar. A religião é banida e o consumismo é exageradamente estimulado. Não há tempo para pensar, nunca!

Não existe o lar, muito menos a figura materna e paterna. Todos pertencem a todos. O sexo, não tendo a função reprodutiva, é estimulado desde cedo, como um ato de recreação e de interação social.

Desta forma, o Estado Mundial criou um modelo de organização social em que todos são felizes, pois inconscientemente sabem que executam um trabalho para o qual acreditam que nasceram para executar, fazendo-os extremamente felizes. Durante o tempo livre, estão jogando, brincando, interagindo socialmente, consumindo, etc. Quando se sentem tristes, tem o soma, que os leva novamente ao estágio de felicidade. O sexo é livre, todos são de todos, e nenhuma necessidade ou desejo é negado. Admirável, não?

Sim, admirável, mas completamente artificial. E, como todo modelo estatístico, sempre haverá falhas que questionarão e desafiarão a ordem do sistema. E esta história nós recomendamos profundamente a leitura. Bernard Max, Mutafa Mond, Lenina, entre outros, são personagens de uma viagem insólita, inesquecível e marcada por diálogos magistrais. Não iremos descrever a história aqui, pois incondicionalmente recomendamos a leitura do livro.

A nota dada pelo grupo foi um sonoro e unânime 10!

Para quem quiser dar uma olhada: http://en.wikipedia.org/wiki/Brave_New_World

Hugo

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Kroeber Le Guin (1969)

Nosso primeiro livro discutido foi a ficção científica A Mão Esquerda da Escuridão, da escritora americana Ursula Kroeber Le Guin, tida como escritora ideal de ficção científica para os leitores que não gostam de ficção científica. Ursula K. Le Guin ganhou com A Mão Esquerda da Escuridão os principais prêmios para ficções científicas Nebula (1969) e Hugo (1970).

Quem escolheu: Raoní

“Escolhi este livro depois de ter assistido ao filme O Clube de Leitura de Jane Austen, onde um dos personagens que só gostava de ler ficção científica (eu) participa deste clube de leitura dos romances água com açúcar de Jane Austen. Ao longo do filme ele convence uma das personagens (a que ele queria dar uma chuliapada, óbvio) a ler A Mão Esquerda da Escuridão. Ela resiste, resiste, mas no final acaba gostando (do livro, gente, do livro). Eis que um neurônio, ainda meio dormindo, diz: eu gosto de ficção científica + grupo com maioria de garotasQueGostamDeLivrosÁguaComAçúcarInclusiveLeramTodosOsCrepúsculos + Ursula Le Guin escreve pra quem não gosta de ficção científica = A Mão Esquerda da Escuridão como primeiro livro a ser discutido.”

Sobre o livro – Resumo das opiniões

Um dos pontos fortes do livro é o próprio planeta Gethen, ou planeta Inverno. No auge de uma era glacial, impõe a seus habitantes um clima hostil de frio constante. Isto se reflete no comportamento destes indivíduos, onde tudo é lento e sem pressa. Os dois países Karhide e Orgoreyn possuem um conflito territorial histórico e nunca haviam pensado em entrar em guerra. Não por um idealismo pacífico, e mais por serem sempre constantes, estáveis. Inclusive, a forma de pensar destes indivíduos, nusuth – não importa, traduz a influência do frio em suas vidas.

Para explicar a cultura e como vivem os habitantes de Inverno, Ursula dedicou alguns pequenos capítulos espalhados ao longo do livro só para isso. Sob a forma de contos e lendas, conseguiu situar o leitor no povo de Gethen, sem precisar divagar no meio da história principal, o que provavelmente tornaria a leitura cansativa.

Mas A Mão Esquerda da Escuridão foi realmente considerado uma boa ficção científica principalmente por levantar uma discussão sobre os gêneros masculino e feminino, e como esta dualidade na essência da nossa realidade interfere diretamente na sociedade. No planeta em que se passa a trama do livro só existe um sexo, um gênero, e cada indivíduo pode assumir o papel de macho ou fêmea se receber estímulo sexual apropriado durante seu período fértil (semelhante ao da mulher). Sendo assim, em quase todo o tempo, a sociedade segue sob pouca ou nenhuma interferência da tensão sexual tão presente no nosso mundo. Em uma passagem do livro, o personagem principal diz: “Suponho que a coisa mais importante, o fator único de maior peso na via do indivíduo, é se ele nasceu macho ou fêmea. Na maior parte das sociedades, isto determina suas expectativas, atividades, pontos de vista, ética, maneiras, quase tudo. Vocabulário, vestuário, até mesmo alimentação.

Infelizmente, por mais que esta seja a principal metáfora que Ursula nos traz, o livro não discute muito isso. A dificuldade que Genly Ai, o personagem principal, humano, tem em compreender os comportamentos andróginos destes indivíduos, tornou o ambiente em que estava mergulhado muito rico de sutilizas e prendeu a atenção de todos os leitores. Entretanto, a escritora gasta muito tempo da narrativa na trama política entre Karhide, Orgoreyn e a Comunidade Ecumênica que Genly Ai representava. Outro momento do livro que o grupo criticou com unanimidade foi a fuga de Genly Ai e Estraven da 3ª Fazenda Voluntária de Pulefen, uma jornada através de um deserto de gelo que se estendeu por monótonas sessenta páginas.

Impressões gerais

As impressões gerais sob A Mão Esquerda da Escuridão foram homogeneas. O livro traz uma realidade interessante, personagens com características únicas e uma narrativa, na maior parte do livro, bastante dinâmica. Levando em consideração a discussão resumida acima, o grupo deu uma nota de 7,5 para o livro.

Próximo!